terça-feira, fevereiro 7

Reflexão sobre os processos psicossocias da exclusão: Ao contexto do CAPS

Ao pensarmos a realidade vivenciada pelo portador de transtorno mental na sociedade vigente o termo exclusão nos parece apropriado, entretanto este conceito é fluido, multifacetado e permite definições ambíguas que tangem tanto a desigualdade por meio de inadaptação individual, quanto a injustiça e exploração social, o que faz com que cada vez mais pesquisadores inovem propondo a substituição deste conceito por outros mais precisos e adequados (SAWAIA, 2001). 




Destarte, em vez de exclusão o que se tem é a dialética exclusão/inclusão. A exclusão é um termo que possui subjetividades específicas (o sentir-se excluído, até o sentir-se descriminado ou revoltado), as quais se legitimam de maneira social e individual, portanto não pode ser explicado por uma determinação única. Estas subjetividades manifestam-se de formas diferenciadas em nosso cotidiano, como identidade, sociabilidade, afetividade, consciência e incosciência. Logo, a exclusão se define como um processo complexo e multifatorial, uma configuração de dimensões materiais, políticas, relacionais e subjetivas. Sutil e dialética, só existe em relação à inclusão como parte essencial, envolve o ser humano por completo e suas relações com os outros (SAWAIA, 2001).


Podemos co-relacionar nossa vivência no CAPs com alguns aspectos do livro “As artimanhas da exclusão – Análise psicossocial e ética da desigualdade social” retratado por Bader Sawaia (2001), numa série de textos que abordam temas como afiliação/desafiliação e doença como projeto, identidade e esteriótipos estigmatizadores e ainda mecanismos de competitividade e culpabilização do indivíduo. 

Através da leitura do texto “Identidade – uma ideologia separatista?” e as discussões vividas em sala, nas disciplinas de Processos Psicossociais da Exclusão e Saúde Mental: Prevenção e Tratamento, a ideia do CAPS é aderida justamente para pensar e possibilitar um tratamento mais humanitário e adequado ao usuáro, que até então, tem uma identidade imposta pela sociedade (adquirida) estigmatizadora. Como é recapitulado por Sawaia, uma das questões que rege nossa conteporaneidade é sem dúvida a questão da identidade como representação e construção de um eu como sujeito único e o uso dessa identidade como referência de liberdade, felicidade e cidadania, tanto em nível das relações interpessoais, como nas relações em um sentido mais amplo como as relações intergrupais e internacionais (Sawaia, 1996 apud Sawaia, 2010).


O movimento antimanicomial aqui no Brasil se consolidou com as implantações dos CAPS e NAPs, estes são frutos de uma luta pela humanização da atenção ao doente mental, tendo com objetivos defender e reafirmar os direitos humanos, contra a tortura e a alienação, a cidadania e o fim do preconceito, para que ocorra mudança nas relações sociais. Ou seja, podemos intuir que o movimento também tem como pano-de-fundo o resgate da identidade do portador de trantornos mentais e possibilitar que o mesmo volte para sociedade em um processo de inclusão. Pois, de acordo com Sawaia (1996 pag.119) “a identidade resgata a individualidade como valor cardeal, ajuda a superar crises e a se posicionar frente a elas”. 


Outra discussão, baseada no texto: “A doença como projeto”, elege o prjeto de vida e o ato de escolha para fomentar a reflexão sobre a dialética exclusão/inclusão. È sutil a desafiliação pelo controle e limitação social das escolhas oferecidas e aceitas pelos portadores de transtornos mentais e de seus familiares, uma vez que este é um processo dinâmico, há sempre um tipo de inserção ou afiliação do sujeito individual ou coletivo, em certas categorias e sitemas sociais. 

Segundo Teresa Carreteiro (1993) apud Sawaia (2001, pag.10) “Alguns aceitam o projeto- doença para ter legitimada sua cidadnia e certa condição de sobrevivência e, assim, passam a ser incluídos no sitema de seguridade, como pertecendo ao seu disfuncionamento”. No texto: “Pressupostos psicossociais da exclusão: competitividade e culpabilização” Robert Far (1991) apud Sawaia (2001) nos fala a respeito de uma “individualização” do social, e um endeusamento do individual, baseados em estudos que ele chamou de “individualismo como representação coletiva”, Far chega à conclusão de que essa representação traz como conseqüência, entre muitas outras, atribuição do sucesso e do fracasso exclusivamente a pessoas particulares, esquecendo-se completamente de casualidades sócio-históricas (SAWAIA, 2001). Isto nos remete ao sofrimento vivido tanto pelos familiares quanto pelo portador da doença mental que muitas são responsabilizados de forma direta e indireta por todos os trantornos que envolvem a patologia. Alguns sofrem acusações que negam a existência da doença classificando de “frescura”, “invenção”, “meninisse” ou transferindo a “culpa” para os familiares, rotulando-os de negligentes, permissivos e omissos.



Observamos na visita técnica que a dinâmica da Instituição não abarca somente o usuário do CAPS, mas, objetiva prestar atendimento à sua família para que o processo de inclusão ocorra de maneira mais efetiva e as relações interpessoais no seio famíliar, sejam mais harmônicas e a mesma não se sinta desamparada e excluída da sociedade e, como consequencia, exclua seu membro etigmatizado como “doente mental”.


É uma luta àrdua, pois esbarra em questões e ideologias presentes em nossa sociedade como o individualismo, ideologia essa que alimenta o descompromisso social. A construção da identidade tem o encargo de preservar a multiplicidade das individualidades para contemplar a alteridade e, nesse caso em especial, a alteridade entre a sociedade, a família e o usuário do CAPS.

Referência:
SAWAIA , B. (Org.) - As Artimanhas da Exclusão: Análise psicossocial e ética da desigualdade social. Petrópolis: Vozes, 3 ED, 2001.