sábado, novembro 14

O INDIVÍDUO E A SOCIEDADE à Luz dos pensadores clássicos

Nossa sociedade ocidental sempre concebeu como verdade a noção de que, é o meio que molda e até define o destino dos indivíduos, ou seja, o homem é produto do meio social (Euzébio Costa, 2000?). A vida em sociedade sempre é originária de problemas, na qual exige de seus membros – os indivíduos – a capacidade de administrar seus conflitos pessoais como por exemplo, a crise da subjetividade, e os conflitos sociais. E um ponto importante a ser considerado, nessa relação entre o indivíduo e a sociedade, é que o problema social tem um caráter transitório e mutável. Pois, ele provém de um ser social e de uma sociedade com essas mesmas características. Cada crise, cada conflito social, é uma renovação. Mesmo que o indivíduo tenha a sensação de ser uma constante repetição, todo problema social tem sua “dinâmica própria”.


A sociedade é fruto das intenções internas individuais de cada ser social. Os conflitos sociais são desencadeados no campo de batalha chamado “sociedade”. E esta sociedade, é fruto desses conflitos individuais, e que sem eles estaria fadada ao esquecimento. Esse é um argumento para o apogeu e queda dos grupos sociais (Euzébio Costa, 2000?). Essa dialética entre o indivíduo e a sociedade leva-nos a pensar que na realidade não é a sociedade que molda o comportamento do indivíduo, mas, que a sociedade é fruto dos comportamentos individuais.


Para Morin (1996), a sociedade surge a partir das interações que se estabelecem entre os indivíduos. Ao se inter-relacionarem, os indivíduos criam organizações que por sua vez apresentam especificidades, quando se trata de linguagem e cultura. Assim, quando o indivíduo nasce, ele necessita aprender os costumes de sua cultura para poder se relacionar com seus semelhantes. Nas palavras de Morin, “diante disso é possível concluir-se que a sociedade produz o indivíduo e esse produz a sociedade (Cavedon, 2003).


Em Simmel encontramos o seguinte pensamento: “Mesmo quem reconhece a ‘vida’ autêntica somente nos indivíduos, e identifica a vida da sociedade com seus membros individuais, não poderia negar uma variedade de conflitos reais entre o indivíduo e a sociedade”. O autor diz que os conflitos existem tanto pelo fato de que é a união dos indivíduos, que se funde em um fenômeno denominado “sociedade”, e esta se torna um mecanismo com “vida própria” se contrapondo ao indivíduo, como também, pela inerência da sociedade no indivíduo. “Pois a capacidade do ser humano se dividir em partes e sentir qualquer parte de si mesmo como seu ser autêntico – parte que colide com outras partes e que luta pela determinação da ação individual – põe o ser humano, à medida que ele se sente como um ser social, em uma relação frequentemente conflituosa com os impulsos de seu eu que não foram absorvidos pelo seu caráter social”. Segundo o mesmo autor, o conflito prossegue no indivíduo com uma luta entre suas partes que não foram absorvidas pelo seu caráter social, a sociedade torna-se o campo de batalha (Simmel, 2006).


Creio que sempre existiu uma necessidade, ou uma curiosidade, em todas as épocas históricas de se conhecer e entender a relação entre o indivíduo e a sociedade. O positivismo de Auguste Comte foi a primeira corrente teórica sistematiza que definiu o objeto de estudo da sociologia e estabeleceu conceitos e uma metodologia de investigação para a mesma. O positivismo derivou-se do cientificismo, ou seja, da crença no poder exclusivo e absoluto da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais. “Essas leis seriam a base da regulamentação da vida do homem, da natureza como um todo e do próprio universo. O conhecimento advindo através do positivismo pretendia substituir as explicações teológicas, filosóficas e do senso comum pelas quais o homem explicava, e até hoje utiliza para explicar, sua realidade (Costa, 1997).


O positivismo reconhecia que os princípios que regulavam o mundo físico e o mundo social diferiam quanto à sua essência. Pois segundo Comte, os princípios que regulavam o mundo físico, diziam respeito a acontecimentos exteriores dos homens, e os princípios que regulavam o mundo social diziam respeito aos outros, a questões humanas. O crescimento das ciências naturais (física, química e biologia) na época atraiu os primeiros cientistas sociais pelo seu método de investigação, nos quais conseguiam controlar as forças da natureza. A tentativa de derivar as ciências sociais das ciências naturais é marca dos primeiros cientistas sociais. O próprio Comte deu inicialmente o nome de “física social” às suas análises antes de criar o termo “sociologia”. A vida social era explicada pelas mesmas relações e princípios usados para se explicar a vida natural. A sociedade foi concebida como um organismo constituído de partes integradas e coesas, funcionando harmonicamente (Costa, 1997).


Em Simmel percebemos um pensamento diferente de Comte, apesar de que Comte não se preocupava em explicar a sociedade através do conflito entre o indivíduo e a sociedade. A relação entre o indivíduo a sociedade, segundo Simmel, esta relacionada com um conflito com dimensões mais amplas e profundas. Está relacionada com a forma geral da vida individual. Podemos até dizer que a relação entre o indivíduo e a sociedade é em forma de uma relação dialética de conflito, onde Simmel diz:


“A sociedade quer ser uma totalidade e uma unidade orgânica, de maneira que cada um de seus indivíduos seja apenas um membro dela; a sociedade demanda que o indivíduo empregue todas as suas forças a serviço da função especial que ele deve exercer como seu integrante; desse modo, ele também se transforma até se tornar o veículo mais apropriado para essa função. Não há dúvida de que o impulso de unidade e totalidade que é característico do indivíduo se rebela contra esse papel. Ele quer ser pleno em si mesmo, e não apenas ajudar a sociedade a se tornar plena; ele quer desenvolver a totalidade de suas partes, sem leva em consideração qualquer adiamento exigido pelo interesse da sociedade” ( Simmel, 2006).




Para Simmel a contraposição do toda a sociedade, que exige de seus elementos a unilateralidade de suas funções parciais, e a parte, que a pretende mesma ser um todo, não se resolve a princípio (Simmel, 2006).. E o positivismo de Comte foi o pensamento que glorificou a sociedade européia do século XIX. Procurava resolver os conflitos sociais por meio da exaltação à coesão, à harmonia natural entre os indivíduos, ao bem-estar da sociedade (Costa, 1997).


E embora Comte seja considerado o pai da sociologia e tenha-lhe dado esse nome, Durkheim é apontado como um de seus primeiros grandes teóricos (Costa, 1997). O esforço pela compreensão sobre a vida em sociedade segue-se com Durkheim. Em 1895 é a data de publicação da obra “As regras do método sociológico”, na qual Durkheim defini que os “fatos sociais” são o objeto de estudo da sociologia. Este objeto então, os fatos sociais se distinguem em três características: a coerção social, ou seja, a força que os fatos exercem sobre o indivíduo, levando-os a conforma-se com as regras da sociedade em que vivem independentemente de sua vontade e escolha. Essa força é observada quando o indivíduo adota um determinado idioma, quando se submete a um determinado tipo de formação familiar ou quando está subordinado a determinados códigos de leis impostos pela sociedade na qual ele pertence (Costa, 1997).


A evidencia dos fatos sociais é notada através das sanções, na qual o indivíduo esta sujeitado. As sanções se caracterizam em legais, são as sanções prescritas pela sociedade, sob a forma de leis, nas quais se estabelece a infração e a penalidade subsequente; e as sanções espontâneas, são as que surgem na decorrência de uma conduta não adaptada à estrutura do grupo ou da sociedade à qual o indivíduo pertence (Costa, 1997). Um exemplo dessa última sanção é a ofensa, ela pode não ter penalidade prevista por lei, mas a sociedade espontaneamente reage a ofensa penalizando o indivíduo “agressor”. Essa sanção é mais corriqueira na sociedade, pois uma reação negativa a um comportamento tido com inadequado é mais intimidador do que a própria lei.
A segunda característica dos fatos sociais é que eles são exteriores aos indivíduos, isto é, os fatos sociais existem e atuam sobre os indivíduos independentemente de sua vontade ou de sua adesão consciente. Um exemplo são as regras sociais, os costumes, as leis, já existem antes do nascimento do indivíduo e são impostas a ele através da educação. “Portanto, os fatos sociais são ao mesmo tempo coercitivo e dotado de existência exterior às consciencias individuais” (Costa, 1997).


Sua terceira característica consiste na generalização, ou seja, todo fato social que é geral, que se repete em todos os indivíduos ou, pelo menos na maioria dos indivíduos (Costa, 1997). A generalidade se manifesta no coletivo ou em uma natureza comum ao grupo. Um exemplo são as formas de como as pessoas moram, se comunicam seus sentimentos e a moral. A generalidade de um fato social é a garantia de normalidade e medida em que representa o consenso social.


Durkheim pretendia em toda a sua teoria sociológica demonstrar que os fatos sociais têm existência própria e independente daquilo que pensa e faz cada indivíduo (Costa, 1997). Todos nós sabemos que cada indivíduo possui uma consciência individual, sua maneira particular de se comportar e perceber a vida e, no interior de qualquer sociedade existem formas padronizadas, segundo Durkheim, de condutas e pensamentos, e isso é a base da consciência coletiva.


Mas um ponto importante a se considerar aqui é de que, a tentativa de se compreender a relação entre, o indivíduo e a sociedade ou, tentar estudar o fenômeno sociedade não aconteceu da mesma maneira em todo mundo. A compreensão da relação entre o indivíduo e a sociedade, foi sob influência do pensamento positivista em parte da Europa. “O desenvolvimento da indústria e a expansão marítima e comercial colocaram a França e a Inglaterra em contato com outras culturas e sociedades, obrigando seus pensadores a um esforço interpretativo da diversidade social” (Costa, 1997). O sucesso alcançado pelas ciências naturais, impulsionadas pela indústria e pelo desenvolvimento tecnológico, fizeram com que o estudo da sociedade fosse fortemente influenciado pela adaptação dos princípios e da metodologia das ciências naturais à realidade social.


Entretanto, na Alemanha ocorreu um processo distinto na realidade dessa sociedade. É tardia a organização do pensamento burguês, e quando ocorre, é sob influência de outras correntes filosóficas e da sistematização de outras ciências humanas, como a história e a antropologia. A Alemanha se unificou e se organizou mais tardiamente também, como Estado nacional, do que as outras nações européias vizinhas e, isso veio a atrasar seu ingresso no desenvolvimento industrial e imperialista. Esse descompasso em relação às grandes potências vizinhas fez elevar no país o interesse pela história como ciência da integração, da memória e do nacionalismo. Em decorrência disso, o pensamento alemão se volta para diversidade, enquanto o francês e o inglês, para a universalidade. Portanto o pensamento alemão se distingue por se preocupar com a diferença. E junto a esse pensamento há a herança do puritanismo, com seu apego à interpretação das escrituras e livros sagrados para a sociedade alemã (Costa, 1997).


Com todas essas características da associação da história, o esforço imperativo e facilidade em discernir diversidades caracterizaram o pensamento alemão e quase todos os seus cientistas. Um deles foi Max Weber. Esse pensador não era a favor da concepção do positivismo sobre a história, na qual diz que, “a história é o processo universal de evolução da humanidade, cujos estágios o cientista pode perceber pelo método de comparativo, capaz de aproximar sociedades humanas de todos os tempos e lugares. A história particular de toda a sociedade desaparece diluída nessa lei geral que os pensadores positivistas tentaram reconstruir. Essa forma de pensar faz desaquecer as particularidades históricas, e os indivíduos são dissolvidos em meio a forças sociais impositivas” (Costa, 1997).


Durkheim em seu livro “As regras do método sociológico”, define o que é espécie social e, avisa pra que não se confunda a definição de uma espécie social com as fases históricas pelas quais ela passa (Costa, 1997). Segundo o autor:


“Desde suas origens, passou a França por formas de civilização muito diferentes: começou por ser agrícola, passou em seguida pelo artesanato e pelo pequeno comércio, depois pela manufatura e, finalmente, chegou à grande indústria. Ora, é impossível admitir que uma mesma individualidade coletiva possa mudar de espécie três ou quatro vezes. Uma espécie deve definir-se por caracteres mais constantes. O estado econômico tecnológico etc. Apresenta fenômenos por demais instáveis e complexos para fornecer a base para uma classificação”. (p 82).


Essa posição de Durkheim e, de outros pensadores, anula a importância dos processos históricos particulares, valorizando apenas a lei da evolução, a generalização e a comparação entre formações sociais. Uma posição contrária a concepção da Alemanha, e por isso Max Weber, com formação histórica consistente, é contra essa concepção de Durkheim. Para Weber, a pesquisa histórica é essencial para a compreensão das sociedades. A pesquisa histórica baseada na coleta de documentos e no esforço interpretativo das fontes permite o entendimento das diferenças sociais, que seriam para Weber, de gênese e formação, e não de estágios de evolução (Costa, 1997).


Segundo o mesmo autor, cada formação social adquiriu especificidade e importância próprias. O ponto de partida da análise sociológica de Weber não está nas entidades coletivas, mas sim na ação social, na conduta humana dotada de sentido, ou seja, na justificativa subjetivamente elaborada. “Assim, o homem passou a ter, enquanto indivíduo, na teoria weberiana, significado e especificidade. É ele que dá sentido à sua ação social: estabelece a conexão entre o motivo da ação, e ação propriamente dita e seus efeitos” (Costa, 1997). Ponto contrastante com a concepção positivista. Pois para o positivismo, a ordem social submete os indivíduos como força exterior a eles. No idealismo de Max Weber percebemos que não existe oposição entre o indivíduo e a sociedade, pois, as normas sociais só se tornam concretas quando se manifestam em cada indivíduo sob a forma de motivação. Cada indivíduo se comporta influenciado pela tradição, por interesses racionais ou pela emoção. E assim sendo, o motivo que transparece na ação social permite desvendar o seu sentido, que é social na medida em que cada indivíduo age levando em conta a resposta ou a reação dos outros indivíduos (Costa, 1997).


Então agora seguindo a teoria weberiana, a compreensão da relação entre o indivíduo e a sociedade, o indivíduo ganha destaque no processo do estudo. Uma vez que a tarefa do cientista é então, descobrir os possíveis sentidos das ações humanas presentes na realidade social. O sentido é a expressão da motivação individual, formulado expressamente pelo agente ou implícito em seu comportamento. O caráter social da ação individual decorre, segundo Weber, da interdependência dos indivíduos. Mas por outro lado, a ação social gera efeitos sobre a realidade em que ocorre, efeitos que escapam do controle e da previsão do indivíduo causador – agente (Costa, 1997).


Mas isso não significa que cada indivíduo possa prever com certeza todas as consequências de determinada ação. E não significa também, que a análise sociológica que se faça, torna-se uma análise psicológica. Por mais individual que seja o sentido da ação do indivíduo, o fato de agir levando em consideração a ação do outro dá um caráter social a ação, sendo dessa forma em toda a ação humana. Contudo, o social só se manifesta nos indivíduos, em forma de motivação interna e pessoal. Mas, Weber ainda faz uma distinção entre a ação e a relação social, para que esta se estabeleça, é preciso que o sentido seja compartilhado. Por exemplo: um indivíduo que pede informação a outro estabelece uma ação social, pois o motivo que o primeiro indivíduo tem, age sob o outro mas não é compartilhado, não é o mesmo motivo entre a ação dos dois indivíduos. Ao contrário de uma sala de aula, onde o objetivo da ação de vários indivíduos é compartilhado, partindo do pressuposto de que o interesse, motivo, seja a aquisição de conhecimento por exemplo. É na frequência de determinadas ações sociais que podemos perceber as tendências gerais que levam os indivíduos, em cada sociedade, a se comportar de determinado modo (Costa, 1997).


O método positivista de Comte e Durkheim expuseram ao pensamento humano a ideia de que uma “sociedade é mais do que a soma de indivíduos, que há normas instituições e valores estabelecidos que constituam o social” (Costa, 1997). E Weber, reorganizou os fatos sociais à luz da história e da subjetividade do agente social. Mas ainda há Karl Marx, que fez grandes contribuições para a compreensão da relação entre o indivíduo e a sociedade. Karl Marx não era seguidor do Weber, mas, uma das correntes mais revolucionárias do pensamento social é o materialismo histórico de Marx.


O objetivo de Marx era de entender o capitalismo, sua obra máxima é “O capital”, destinada a todos os homens, não apenas aos estudiosos de economia, da política e da sociedade. A obra de Marx teve influencia da leitura crítica da filosofia de Hegel, no qual o autor aplicou em “O método dialético”. Também teve uma forte influência do pensamento socialista francês e inglês do século XIX, como do conde de Saint-Simon, François-Charles Fourier e do Robert Owen. Max destaca o pioneirismo desses críticos da sociedade burguesa, mas reprova o utopismo das suas propostas de mudança social. As três teorias, dos autores acima mencionados, tinham em comum o desejo de impor de uma só vez uma transformação social total, implantando o império da razão e da justiça eterna. Nos três sistemas elaborados havia a eliminação do individualismo, da competição e da influencia da propriedade privada (Costa, 1997).


Em sua trajetória Marx desenvolve o conceito de alienação mostrando que a industrialização, a propriedade privada e o assalariamento separavam o indivíduo trabalhador dos meios de produção (ferramentas, matéria-prima, terra e máquina), que se tornaram propriedade privada do “capitalismo”. Havia a alienação também, do trabalhador e do fruto de seu trabalho, que também é apropriado pelo “capitalismo”. Essa então é a base da alienação econômica do indivíduo trabalhador sob o capital. Na política também existe a alienação, como mostra Marx, pois o princípio da representatividade, base do liberalismo, criou a ideia de Estado como órgão político imparcial, capaz de representar toda a sociedade e dirigi-la pelo poder delegado pelos indivíduos. Marx mostrou também, entretanto, que na sociedade de classes esse Estado representa apenas a classe dominante e age conforme o interesse dela (Costa, 1997).


Com o desenvolvimento do capitalismo, as formas de pensamento, como a filosofia, também passaram a criar representações do homem e da sociedade. E no dizer de Marx, a divisão social do trabalho fez com que as formas de pensar se tornassem a atividade de determinados grupos. As formas de pensar seriam portando, parciais e refletiriam o pensamento do grupo. E essa parcialidade e o fato de que o estado se torna legítimo a partir dessas reflexões parciais, transformou a formas de pensar, em formas de pensar do Estado, resultado também da alienação do homem. E uma vez alienado, o homem só pode recuperar sua condição humana pela crítica radical ao sistema no qual ele vive (Costa, 1997).


As ideias liberais consideram os homens iguais, por natureza, política e juridicamente. A liberdade e a justiça eram tidos como direitos inalienáveis de todos os indivíduos. Mas Marx demonstra em seu pensamento, a inexistência da liberdade natural e observa que o liberalismo vê os homens como átomos, como se estivessem livres das óbvias desigualdades estabelecidas pela sociedade. Segundo Marx, as desigualdades sociais de seu tempo tinham como causa as relações de produção do sistema capitalista, que dividem os homens em proprietários e não-proprietários. As desigualdades são à base da formação das classes sociais. As relações entre os indivíduos se caracterizam por relações de oposição, exploração e complementaridade entre as classes sociais. A história do homem é a história da luta de classes, da luta constante entre interesses opostos (Costa, 1997).


O indivíduo trabalhador no capitalismo se torna o operário, que é o indivíduo que nada possuindo é obrigado a sobreviver da venda de sua força de trabalho. No capitalismo, essa força de trabalho é como mercadoria, pode se comprar ou vender. Então a relação entre o capitalismo e o operário é que, o primeiro compra a força de trabalho em forma de salário. O salário é o valor da força de trabalho, considerada como mercadoria. E como a força de trabalho é uma capacidade inseparável do corpo do operário, o salário deve corresponder à quantia que permita o operário a se manter e estar de volta ao trabalho no dia seguinte (Costa, 1997).


Para entender o capitalismo e explicar a natureza da organização econômica humana, Marx desenvolveu uma teoria que procura dar conta de toda e qualquer forma produtiva criada pelo homem em todo o tempo e lugar. Os princípios básicos dessa teoria são expressos em seu método de análise, o materialismo histórico. Marx parte do princípio que a estrutura de uma sociedade reflete a forma como os indivíduos organizam a produção social de bens. A produção social, segundo Marx, engloba dois fatores básicos: as forças produtivas constituem as condições materiais de toda a produção. “O homem é o principal elementos das forças produtivas, é o responsável por fazer a ligação entre a natureza e a técnica e os instrumentos.” (Costa, 1997); e as relações de produção, que são as formas pelas quais os indivíduos se organizam para executar a atividade produtiva. Para Marx, a análise pelo modo de produção é fundamental para o entendimento como se organiza e funciona uma determinada sociedade (Costa, 1997).
“O sucesso e a penetração do materialismo histórico, quer no campo da ciência, quer no campo da organização política, se deve ao universalismo de seus princípios e ao caráter totalizador que imprimiu suas ideias” (Costa, 1997, p94).


Além dessa caracterista de universalismo da teoria marxista, outras questões adquiriram nova dimensão com os princípios de Karl Marx. Um deles foi a objetividade, no qual só se coloca enquanto consciência crítica. A objetividade, para Marx, não é uma questão de método, mas de como o pensamento cientifico se insere no contexto das relações de produção e na história ( Costa, 1997). A ideia de uma sociedade “doente” ou “normal”, que era a preocupação dos pensadores sociais positivistas, desaparece em Marx. Para ele a sociedade é constituída de relações de conflito e é de sua dinâmica que surge a mudança social. A partir do conceito de movimento histórico proposto por Hegel, assim como do historicismo em Weber. Marx redimensiona o estudo da sociedade humana (Costa, 1997).


Hoje por mais evidente que sejam os limites, interesses ideologias e preconceitos inscritos no estudo positivista sobre a sociedade, por mais que o positivismo tenha servido como propulsor para as políticas conservadoras, como justificativa das relações de desigualdades entre as sociedades, não se deve esquecer que o positivismo foi a forma mais concreta de análise científica da sociedade. O positivismo via, ou permitiu a percepção de que a vida em sociedade era passível de ser estudada e compreendida, que o homem possuía, além de seu corpo e sentimentos, uma natureza social. As leis gerais capazes de explicar a evolução das sociedades humanas em Durkheim ganham consistência, ele procurou estabelecer os limites e as diferenças entre a particularidade e a natureza dos acontecimentos filosóficos, históricos, psicológicos e sociológicos (Costa, 1997).


Em suma, podemos concluir que, o indivíduo está localizado na sociedade. E a atual sociedade na qual vivemos, esta dividida em classes como um modo de localizar o indivíduo na sociedade. Essa localização também tem suas consequências sobre o indivíduo, de modo que esta interfere na vida do indivíduo. O que ocorre é um enquadramento da massa de indivíduos dentro de um “conceito” chamado classe socioeconômica. E dentro desse conceito há uma subdivisão entre os indivíduos localizados na classe socioeconômica mais “alta” e a classe socioeconômica mais “baixa”, e essa mesma classe denominada mais “baixa” é quem esta subordinada ao poder da classe denominada como mais “alta”, como já dizia Marx (Costa, 1997).


O indivíduo age em sociedade dentro de sistemas cuidadosamente definidos de poder e prestígio (o controle social). Com tudo, o objetivo principal de cada indivíduo é obter sucesso na vida. Nada se torna possível ou impossível, o que o indivíduo tem a fazer é desenvolver um comportamento, ou personalidade, que esteja de acordo ou, que agrade a sociedade na qual ele está inserido. Na verdade, nada mais é do que dizer o que as pessoas querem ouvir. A sociedade é o acumulo, tanto físico como mental, de tudo que o indivíduo conseguiu adquirir. Assim, a sociedade tende a juntar seus semelhantes. Enfim, cada época concebeu, percebeu ou, construiu a relação do indivíduo e a sociedade conforme cada época histórica foi sendo construída, bem como a relação entre o indivíduo e a sociedade também foi se construindo e se tornando cada vez mais complexa como explica o historicismo em Weber (Costa, 1997).


REFERENCIAS


COSTA, Euzébio, O indivíduo e a sociedade, data provavel 2000, disponível em: http://www.mundodosfilosofos.com.br/individuo-sociedade.html; (último acesso 25/10/09 às 21h36).


CAVEDON, Neusa Rolita, Antropologia para administradores, Porto Alegre, UFRGS, 2003.


SIMMEL, Georg, Questões fundamentais da sociologia, Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2006.


COSTA, Cristina, Sociologia: Introdução à ciência da sociedade, Editora Moderna, 2º Edição, São Paulo, 1997.