domingo, outubro 11

RESENHA CRÍTICA SOBRE O FILME “GATTACA – EXPERIÊNCIA GENÉTICA”


O longa-metragem “Gattaca – Experiência genética” do gênero ficção científica, dirigido por Andrew Niccol e produzido por Danny DeVito, lançado em 1997 no EUA pela Empresa Produtora Columbia Pictures Corporation e Jersey Films, com aproximadamente 112 minutos é um crítica ao poder da engenharia genética e a eugenia social. A sociedade de Gattaca está dividida em duas “classes sociais”: os “Válidos, filhos da ciência”, e os “Inválidos, os filhos de Deus”, estes por sua vez, submetidos ao acaso da Natureza e às impurezas genéticas. O filme retrata uma sociedade cuja técnica de manipulação do código genético tornou-se prática cotidiana de controle social.


A trama do filme segue dentro de um contexto no qual o DNA já foi decifrado, onde se criou uma nova geração de seres humanos muito mais “saudáveis” que sua antecessora, pois a grande maioria dos casais que desejam conceber uma criança recorria à fertilização artificial. Cada embrião a ser implantado na respectiva mãe é escolhido pelo código genético. E com o código decifrado, o embrião com as melhores características herdado dos pais como, QI elevado, ótimo porte físico, e ausência de doença genética graves, é escolhido para ser gerado. Como consequência dessa busca pela perfeição, um ressucitamento do sonho de Hitler, podemos dizer que, a sociedade em que se passa a trama, aprendeu um novo tipo de preconceito: o gênico.


Inserido nesse mesmo contexto do avanço científico, as viagens interplanetárias já é algo possível e, é nesse ambiente que se desenvolve a história de um homem, Vicent Freeman interpretado por Ethan Hawhe, condenado pela hereditariedade a várias doença graves, mas, que não desiste de ir em busca da realização de seu sonho, participar de viagens e projetos espaciais. O que se observa é que o tema da técnica de manipulação genética perpassa o filme. Apesar do mais alto controle social garantido pelo registro do código genético, a espécie humana continua a ser a mesma no que diz respeito a visão da sociologia, a divisão de “classes sociais”.


As personagens da trama são seduzidas a participar da pesquisa genética pelo status social, pois a elite da sociedade já não é mais quem detém o capital, como é hoje na nossa sociedade, mas sim quem tem a melhor qualidade em células. E para atingir a perfeição, ser considerado um cidadão “Válido”, as personagens ou eram concebidas de modo artificial através dos laboratórios ou, recorriam a práticas de utilização de meios escusos e clandestinos como, os chamados “piratas genéticos”. E esse é o caso do personagem Vicent. Para conseguir entrar na Corporação Gattaca, Vicent clona os registros genéticos de Jerome Morrow, interpretado por Jude Law, um ex-atleta medalha de prata em natação que se acidentou e perdeu a mobilidade das pernas.
O filme se passa na corporação Gattaca, mas poderia ter como cenário um campo de concentração ou uma sociedade totalitária qualquer (como por exemplo, a sociedade nazista de Adolf Hitler na Alemanha). Vicent representa o herói americano em sua luta contra o sistema, agora representado pelos imperativos categóricos da eugenia social. A sua luta é contra o destino de classes agora demarcado, graças ao avanço da técnica da pesquisa genética, pelo estigma do destino genético. Um destino genético produzido pelo homem, mas que, na medida em que é produto de um afastamento das barreiras naturais numa sociedade de classes (classes divididas pelo poder aquisitivo), tende a se tornar uma “segunda natureza” (a natureza dos humanos “válidos”, filhos da ciência). A biologia genética constitui uma das mais poderosas áreas do trabalho científico da humanidade e, certamente, é regido por um rigoroso código de ética e por normas que tem como finalidade evitar que ocorra a utilização para fins escusos as descobertas e experimentos da área, ou pelo menos deveria ser assim.


É interessante para nós como futuros psicólogos analisar a história do filme na perspectiva do Behaviorismo, no que diz respeito ao determinismo versus o livre arbítrio. O determinismo prega que o comportamento do homem é determinado pelo ambiente e pela herança genética, em contrapartida, o livre arbítrio diz que existe algo dentro do indivíduo que o possibilita de ser livre para fazer escolhas (Não existe um gene para o espírito humano – Gattaca, 1997). O controle do indivíduo sobre si é a deliberação entre as opções que são apresentadas em determinadas situações ao longo da vida. É curioso observar no filme a ideia de que cada célula denúncia todo histórico do indivíduo, uma perda da liberdade.


Desde tempos imemoriais, os seres humanos definiram padrões de excelência, que certamente variam de acordo com cada época e, com base nesses estereótipos ideais, cobram a si mesmos e aos demais que atinjam este patamar. É claro que, apesar da cobrança, existe uma consciência em relação as nossas limitações. E ainda assim, o sonho permanece, persiste e alimenta elucubrações várias que, inclusive, chegam aos círculos científicos e promove o surgimento regular de fórmulas que garantam à eterna juventude, a beleza infindável, a máxima sabedoria, o fôlego interminável, enfim, a consolidação da “utopia” humana em busca da perfeição. Neste sentido a indústria farmacêutica, a medicina, a química e a biologia genética acabam se tornando os principais dínamos deste movimento de busca da perfeição. As cirurgias plásticas, botox, cosméticos e cremes variados, remédios diversos e até mesmo produtos que antecipem os problemas genéticos antes mesmo do nascimento são algumas das alternativas encontradas, até o presente momento, para que burlemos a natureza.